Os ataques terroristas recentes, como os ocorridos em Paris, nos fazem refletir sobre a capacidade do espírito humano em realizar obras tão grandiosas como também tão terríveis. O filósofo alemão Theodor Adorno na obra “Dialética da Razão” tem uma constatação implacável: “O terror e a civilização são inseparáveis”(1). O historiador Xenofonte (430-349 a.C.) já relatava na Antiguidade que o terrorismo era praticado pelos governos das cidades gregas como forma de guerra psicológica contra populações inimigas. Entrentanto, a forma banal como é praticado na atualidade é algo nunca visto antes.

Estado Islâmico – atração de jovens e estrangeiros pelo ressentimento da globalização.

O filósofo francês Jean Baudrillard já alertava a transformação do terror em um espetáculo midiático para o homem transparecer o mais obscuro objeto de ressentimento contra o excesso de poder criado pela globalização. Ele acreditava que o terror seria um confronto – não entre civilizações – mas antropológico – entre a cultura universal e tudo o que conserva “algo de uma alteridade irredutível”(2). Para o poder mundial, tão radical quanto a ortodoxia religiosa, todas as formas diferentes e singulares constituem heresias. Por esta razão, todas as culturas estão condenadas a entrar, querendo ou não, na ordem mundial ou a desaparecer. Contra o poder terreno avassalador da globalização restava apenas a vingança selvagem.

Horror transmitido em tempo real em Paris.

Essa visão romântica do “jihad”, guerra santa contra tudo que é universal, é explorada pelos grupos terroristas muçulmanos, especialmente o Estado Islâmico, para atrair cada vez mais jovens para suas colunas. Não são mais necessárias as ideologias ou motivos, o ódio em si levam seus participantes a uma violência aberta de tudo e contra todos. Para Baudrillard “é no excesso e no conforto que os terroristas criticam em nossa cultura – donde a repercussão que o terrorismo encontra e o fascínio que exerce”(2). Para esse grupos, basta acionar um “lobo solitário”, um cidadão aparentemente comum e simpatizante desse ressentimento e gerar um rastro de sangue em um restaurante ou em uma casa de shows.
Após os atentados do Word Trade Center em Nova Iorque em 2001, o compositor alemão Karlheinz Stockhausen realizou a seguinte declaração inusitada para a imprensa:

“Isto que assistimos é a maior obra de arte jamais realizada. Que espíritos atinjam num só ato o que nós, músicos, não pudemos conceber; que pessoas se exercitem fanaticamente durante dez anos, como loucos, para um concerto, depois morram. Imaginem o que ocorreu. Cinco mil pessoas estão concentradas sobre uma representação e são, num instante, arremetidas rumo à ressurreição. Eu jamais chegaria a tanto. Diante disso, nós, compositores, não somos nada.”(3)

Se a princípio essa declaração chocaria a opinião pública, ela tinha que ser posta no contexto da entrevista. Stockhausen quando citou a expressão “obra de arte” ele fazia referência em seu espírito à ação destruidora do diabo em “O sonho de Lúcifer”, primeira cena da ópera Sábado. “Tal horror só poderiam ser uma obra-prima do próprio diabo, o espírito cósmico de rebelião e anarquia” explicou ele, mais tarde.

O belga Abdelhamid Abaaoud, suspeito de ser o instigador dos ataques de sexta-feira em Paris: vingança é o único motivador.

Qualquer que tenha sido a responsabilidade de Lúcifer nos planos diabólicos da Al-Qaed e, mais recentemente, do Estado Islâmico, Stockhausen fizera um julgamento estético e subjetivo sobre os atentados terroristas que descartam toda a consideração ética e objetiva(4). O terrorismo é transformado em uma arena de horror e massacre, onde não existe ideologia, muito menos oprimido contra opressor. É apenas a carnificina televisionada sem nexo, como se as vítimas fossem atingidas por forças naturais e levadas ao seu destino. E seus criadores teriam a lógica de Nero quando mandou incendiar Roma, eles necessitam de um palco impactante que os inspirassem a criarem sua obra-prima.